segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Praças, toldos e esquinas.

Quem mora na rua é asfalto, não interessa se asfalto de piche ou de carne e osso, é tudo asfalto. Preto, com faixas brancas, amarelas, postes cravados no peito. Alguns são remendados, outros malabaristas, alguns avenidas nobres, outros moram em marquises, asfaltos pobres. Veem o mundo de baixo pra cima, amparam lágrimas de prostitutas, escarros de empresários, e sorrisos de estrelas. Batem carteiras.
Mas quem mora na rua também quer ser Deus, também quer ser Deus, quer ter Deus, precisam de Deus, moram com Deus, vão com Deus, vão com Deus, vá com Deus, vá com Deus meu menino, com Deus...
O garoto pulava do alto da muralha e caía na água como pássaro atrás de peixe, passava rente ao concreto, mas era malandro, caía na água. Não tinha nada a perder, nem mesmo a vida, asfalto não é ser vivo, é rua e mais nada. Mas na distância que percorria do alto do muro, até a água, ele era único, e os olhos daquela gente toda que assistia, acompanhavam como que em uma procissão e viam no asfalto a imagem e semelhança de Deus.

-Menino, sabe que pode morrer pulando assim?
-Sei sim dona!
-Então por que cargas d'água não para?
-Alguém no mundo dispensa a fama tia?
-Não! mas você não está ganhando fama com isso. Só está se arriscando para turistas que não dão a mínima para a sua vida.
-Minha senhora, alguém para pra te assistir criando seus filhos?