quinta-feira, 22 de outubro de 2009

The self-made man

Trabalhe, rasteje. Compre um carro, compre uma diversão. Compre dólar, invista na bolsa de valores, em imóveis. Faça-se. Escreva o seu sucesso.
Compre uma carreira.
Vire diretor da empresa onde trabalha. Compre outro carro, outro imóvel. Viva com uma esposa que te ature.

Escreva um livro
Plante uma árvore
Tenha um filho

E morra com a consciência limpa de que seu turismo está completo. Yes, you made It!

Perdão por ter ficado para trás.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

É bem grande essa bosta toda

(Leia tudo por favor, se não quiser ler o que escrevi tudo bem, mas deixar de ler o poema que segue abaixo, é ser um ser humanozinho de merda).

Me da cá este poema, e mostra que morro de dentro pra fora, sem que o tiro acerte a carne, sem que o coração vire pedaços, sem que meu cérebro caia aos meus pés.
Deixa-me ler esta poesia que me faz menos homem, que te deixa menos mulher, que mostra o eu lírico da degraça.
E logo poesia, que quando digo ler pensam que sou romântico, que vou recitar rimas lindas à minha amada. O que vou recitar quando quiser conquistá-la? Vou dizer a ela como é que muitos morrem, como eu vomito meu ego em folhas brancas, como rabisco um guarda-napo bom à tinta suja, tentando fazer enxergar que gritar alto ao mundo SOLIDARIEDADE, vai ser mais bonito do que dizer ao pé do ouvidinho dela EU TE AMO e vê-lo morrer de fome já que não vamos alimentá-lo pra sempre, e esse tal sozinho não se vira, é deficiente incapacitado hoje em dia. Se ainda assim ela me amar, viro poesia pra ela gardar detro do peito e não me deixar sair nunca mais.
Me da logo essa poesia, de ser poeta com merda alguma, e extrair dessa merda toda, o perfume de viver completo, com merda até o pescoço.


"A bomba suja

Introduzo na poesia
A palavra diarréia.
Não pela palavra fria
Mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala de fuzil
,homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

Por exemplo, a diarréia,
no Rio Grande do Norte,
de cem crianças que nascem,
setenta e seis leva à morte.

É como uma bomba D
que explode dentro do homem
quando se dispara, lenta,
a espoleta da fome.

É uma bomba-relógio
(o relógio é o coração)
que enquanto o homem trabalha
vai preparando a explosão.

Bomba colocada nele
muito antes dele nascer;
que quando a vida desperta
nele, começa a bater.

Bomba colocada nele
Pelos séculos da fome
e que explode em diarréia
no corpo de quem não come.

Não é uma bomba limpa:
é uma bomba suja e mansa
que elimina sem barulho
vários milhões de crianças.

Sobretudo no nordeste
mas não apenas ali
que a fome do Piauí
se espalha de leste a oeste.

Cabe agora perguntar
quem é que faz essa fome,
quem foi que ligou a bomba
ao coração desse homem.

Quem é que rouba a esse homem
o cereal que ele planta,
quem come o arroz que ele colhe
se ele o colhe e não janta.

Quem faz café virar dólar
e faz arroz virar fome
é o mesmo que põe a bomba
suja no corpo do homem.

Mas precisamos agora
desarmar com nossas mãos
a espoleta da fome
que mata nossos irmãos.

Mas precisamos agora
deter o sabotador
que instala a bomba da fome
dentro do trabalhador.

E sobretudo é preciso
trabalhar com segurança
pra dentro de cada homem
trocar a arma de fome
pela arma da esperança."

(Ferreira Gullar)




Numa tarde de céu azul, li este poema em um livro nas mãos de uma amiga. Numa tarde de céu azul, parei e repensei o que li e escrevi durante a vida. Numa tarde de céu azul, vi uma porta bandeira ir embora portando um pedaço de mim. Nesta mesma tarde de céu azul, com o sol quase se sumindo, fiquei certo de que ler uma poesia, seja ela qual for, é um ponto de interrogação, ou uma tatuagem na alma.