quarta-feira, 29 de julho de 2009

Hey moça, deixou o lenço cair...

Aquele lenço no pescoço, aquele jeito de cruzar as pernas, o morder nos lábios ao olhar de canto... e nada disso era verdade, não fosse a fantasia. Eu fantasiava algo menos agressivo, ela via logo a própria carne em minha boca. Esse papo de gripe pouco importava, estávamos todos amontoados frente a uma banda argentina, mas em meio ao que deveria ser o caos, havia tempo para que eu visse aquele lenço, e tempo para que ela me percebesse ali, olhando. Não costumo disfarçar meus olhares, mas também não saio expondo minhas fantasias. Eu não exponho, mas ela também sabe fantasiar, e não teve dúvidas, logo que percebeu meu gosto pelos tais lenços tratou de fantasiar, e fez questão de me dizer que eu era um maíaco.
O problema é que algo me colocou na cabeça que aquilo existia, que aquela fantasia dela era mesmo minha, e eu era exatamente aquele bicho, aquele monstro. John lennon passava a me sufocar, agora o meu gosto era por PSYCHOBILLY, ouvia Batmobile para saciar minha sede, e pensava naquele lenço, na verdade, pensava no pescoço. Num lapso de sanidade conversei comigo mesmo:
- Hey, o que é isso Johnny? Você está mesmo louco? essa obsessão não é sua, não faz parte de você, você é um cara boa praça!
E minha resposta veio seca:
- Somos todos boa praça até que algo nos corrompe, se não o dinheiro, nos corrompe o fato de sermos humanos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

3 atos e partida.

Os palhaços descalços pisam sobre as zebras, pisam sobre os ombros dos parceiros de palco e quase podem tocar a luz vermelha fazendo-os meramente notáveis. Malabares de tênis ou frutas, cambalhotas de imporviso e uma platéia estática, doida para partir; para dar partida. Pequenas tochas pirofágicas que tanto lhes sapecaram as mãos, hoje com destreza apurada voam e voam e retomam sem apagar. A luz agora é amarela e muda o ato - com chapéu na mão, os trambolhos embaixo do braço, com jeito de embaraço e piedade de palhaço que é nos olhos pede um trocado – luz verde – acaba o espetáculo. A partir, a partida. Ali paga-se arte com desaforo, dia-noite dia-a-dia até noite no picadeiro embaixo do semáforo. Retesa o coração, palhaço, aí vem vindo outros carros.