segunda-feira, 6 de abril de 2009

Passo por praças e avenidas, não pela vida.

Tudo o que vivi me marcou o rosto, cada riso que dei fez uma marca de expressão, mas cada dor que senti me trouxe uma ruga. As linhas demarcadas pela péle formam um mapa que pode ser lido, dividido em tristezas e felicidades, ambas não posso contar, mas estas marcas provam que vivi cada uma. Porém a felicidade marca uma data, as dores marcam a alma. A alma se expressa no rosto e se transparece nos olhos. Meus olhos não se entristeceram por toda a vida, mas não foram felizes por toda esta, os momentos bons foram intensos, muito mais que os ruins, mas duraram horas, ou dias, os ruins me afetaram por decadas. Por decadas mas nunca eternos.
Não deixei que as dores tomassem conta do meu ser, mas toda a minha força não permitiu que elas não me invadissem. Fui forte a ponto de parar o aço, e toda a vida o que me penetrou o corpo foram as brisas frias que traziam o cheiro de damas da noite.
Não pude parar o tempo, mas cada momento eternizou-se em minha péle , e em cada ruga o tempo se faz parar. Se minha memória não falhasse poderia contar a história de cada uma delas, mas já não me lembro quando cada uma surgiu, então não sei qual era a dor que naquele tempo tanto me doía.
Quando me olhei no espelho, a vida já tinha passado por mim várias vezes, mas eu nunca passei por ela, eu a vivi. E todas as vezes que ela passou por mim fiz eu questão de mostrá-la quem eu sou, e porque cada ruga estava surgindo em meu rosto. Surgiam uma por vez, a cada vez que o mundo me golpeava, e eu gritava em silêncio, olhava o sol nascer anunciando um novo dia, e me enrugava um pouco mais todas as vezes que me ergui dolorido para ve-lo.
Perdoo o assassino de meu pai, perdoo os amores que de mim fugiram, perdoo a vida, perdoo o mundo, o sol, o tempo. Mas guardo em cada sono, e vejo em cada espelho, e conto, e moro, existo, somente em cada uma de minhas rugas, e por isso não as escondo. Porque ainda posso dentre todas elas lhes mostrar que sei sorrir.